Como música de fundo, tenho o som que vem das paredes, tenho o som que vem da casa do vizinho.
Se não fosse por causa dele, eu estaria mergulhada no mais profundo silêncio. Estaria enrolada nele, embrenhada nele, afogada nele.
E sinceramente, não me importaria.
Às vezes a nossa cabeça fala tão alto que não precisamos de ouvir mais som nenhum. Às vezes a nossa cabeça grita, salta de um pensamento para o outro, bate no nosso crânio e ecoa, ecoa, ecoa...
Quando começa a falar nesse tom de voz, há vezes em que nos sentimos grandes, porque o que ela diz é: "Boa, conseguiste!". Mas hoje não. Hoje eu sinto-me pequenina porque ela diz que o chão que piso é apenas ilusão e o céu que quero é inalcansável.
Não, a minha cabeça, o meu cérebro não é pessimista, eu sim sou. E quando eu sou eu rotulo o meu cérebro de realista.
Eu sou feita daquela matéria que existe nos pelos da juba de leão, dos ventos gelados das montanhas e de um bocadinho de pedra lua. Sim, sou realmente tão independente que só aceito as ordens deste cérebro que me deixa pequenina.
Não fui feita para me ligar verdadeiramente a um ser humano. Não ao ponto de criar uma ligação tão forte que nos envolve o corpo todo e quase não nos deixa mover. Não ao ponto de criar um elo que me alimentaria, dia após dia, viciando-me nele.
Sinto-me tão dependente de ti, e sobre isso sinto-me mal, porque não sei se é da pedra lua ou de um ingrediente secreto, mas não consigo aceitar isso.
Sou uma drogada que não admite o seu mais profundo vício que neste caso posso afirmar que és tu.
Mas não faz mal. Sobre isso, vou-me habituando porque ainda tenho em mim matéria humana.
O que realmente me deixa uma mistura de zangada-triste-melodramática-realista-inconformada é o facto de tu seres o céu.
De tu seres inalcansável.
Não és aquele magnífico que me sorri ao de leve, isso não és, lamento dizer-te que essa posição está ocupada, mas és aquele que eu amo sem amar, quero sem poder ter.
Direi isto de outra maneira:
Leitores, aquela sensação de "tão longe mas no entanto, tão perto" estão familiarizados?
Pois é a isso que me refiro.
O meu coração e o dele vivem num mundo diferente, e nesse mundo estão tão interligados entre si, tão, lá está, dependentes (pelo menos o meu está do teu), que anseio, que desejo, que desespero estarmos ligados no mundo real também.
Eu estou aqui, isso é certo.
Todos os meus átomos estão aqui comigo agora, e os teus não.
Os teus não estão comigo, os teus estão a uma distância que aumenta cada vez que penso nela.
Saber que nunca te posso vir a abraçar, a beijar, a cheirar o teu cabelo escuro, a mergulhar na tua pele cor de café, deixa-me doida.
Como quando era miúda, e havia uma árvore com laranjas deliciosas. Pode dizer-se que essas laranjas me deixavam feliz.
Eu nunca cheguei realmente a apanhar sozinha uma dessas laranjas, porque estavam demasiado alto.
Mesmo que eu saltasse, mesmo que todo o meu corpo se concentra-se nessa árdua tarefa, nunca conseguia chegar-lhe.
E se for o mesmo contigo?
Eu estou feliz quando te falo e quando me expresso, sim, mas neste caso, uma pessoa que já escreveu tantas palavras e que pensava que nunca poderia sentir-se tão positivamente presa pode afirmar:
Palavras, por mais bonitas que sejam, nunca me irão deixar sentir-te na verdade.
Por mais real que isso pareça, nunca me deixarão ouvir o bater do teu coração.
Em parte a culpa é minha porque eu sempre quis ser feliz.
E na passagem de ano, nas 12 badaladas eu comi três passas pela felicidade.
De facto tive-a, mas incompleta.
Para a próxima vou pedir 12 vezes.
Para a próxima vou pedir-te a ti, porque tu és a pessoa mais próxima do céu que eu alguma vez possa ter.
Ergo o futuro champanhe da futura passagem de ano e digo:
A ti.
Matilde Quintela
Quarta-feira, 23 de Março de 2011
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